Diogo Martins: o primeiro Young Rider a se tornar tetracampeão nacional do CEIYJ2* 120 km no Brasil
Como disse Miguel de Cervantes por meio de seu famoso personagem Dom Quixote de La Mancha: *“Quando se sonha sozinho, é apenas um sonho. Quando se sonha junto, é o começo da realidade.”* Esse sonho compartilhado começou a tomar forma no final de 2007, quando os pais de Diogo de Oliveira Martins realizaram seu desejo ao matriculá-lo em uma escola de equitação. Anos depois, ele fez história ao se tornar o primeiro jovem cavaleiro a conquistar, por quatro anos consecutivos, o título de Campeão Brasileiro Nacional no CEIYJ2* 120 km.
Seu primeiro título veio em 2021, com Verve Rach (Voltaire Rach x Vaneska Rach), seguido pela segunda vitória em 2022, com CP Latifa (Qubilaikhan de Crouz x Eternity da Barra). Em 2023, garantiu o terceiro campeonato com Zoey Kong Rach (Hong Kong x Zoe Rach) e, em 2024, conquistou o quarto título com Peridot Rach (Mister Eros HX x Patrizia Rach).
Nascido em uma família com profunda paixão por cavalos, o destino de Diogo parecia inevitável. Seu avô paterno era criador de cavalos Quarto de Milha, enquanto seu pai competia em provas de Rédeas. Pelo lado materno, seu avô era criador de cavalos Árabes, fortalecendo ainda mais a ligação de Diogo com o esporte equestre.
O que começou como um sonho de infância logo se tornou um projeto familiar, com seus entes queridos apoiando cada passo de sua trajetória no enduro. Seu pai, Rodrigo Alvarenga Campos Martins, médico-veterinário na área de pecuária, envolveu-se de tal forma com o esporte que foi nomeado Chefe d’Equipe da seleção brasileira no Campeonato Mundial de Enduro da FEI Monpazier 2024. Já sua mãe, Marina Pedroso, fotógrafa profissional, dedicou-se a registrar desde o início cada momento da jornada de Diogo no enduro.
Além do apoio incondicional da família, duas equipes tiveram papel fundamental no sucesso de Diogo no enduro brasileiro. A primeira é a equipe Rancho da Capital, de Brasília, e a segunda é a equipe Rach Stud, de Minas Gerais, com a qual ele conquistou três de seus quatro títulos — todos montando éguas Rach. Essa parceria também resultou em uma amizade para a vida inteira com Rodrigo Storani Saliba, marcando o início de um vínculo que vai muito além das pistas de competição.
Diogo Martins entrou para a história como o primeiro jovem cavaleiro a alcançar o título de tetracampeão nacional na categoria CEIYJ2* 120 km de enduro no Brasil. Essa conquista notável evidencia não apenas sua habilidade excepcional e dedicação, mas também sua paixão pelo enduro equestre.
Com performances consistentes e compromisso inabalável com o esporte, Diogo estabeleceu um novo padrão para os jovens cavaleiros do país. Sua trajetória é uma inspiração para aspirantes ao esporte equestre, provando que perseverança, disciplina e amor pelo que se faz podem levar a resultados extraordinários.
À medida que dá continuidade à sua carreira, Diogo Martins segue como um nome a ser acompanhado de perto no cenário do enduro, representando o Brasil com excelência no âmbito nacional e internacional.
Nome, idade e local de nascimento
Diogo de Oliveira Martins, tenho 20 anos e nasci em Goiânia, capital do Estado de Goiás.
Fale um pouco sobre você.
Sou um jovem apaixonado por cavalos e por tudo o que os envolve. Sou estudante de Economia, gosto de viajar e de fazer amizades.
Qual foi sua primeira experiência próxima com cavalos?
Nasci e fui criado em uma família que ama cavalos, esportes, fazendas e a cultura do campo. Meu avô paterno foi um grande criador de cavalos Quarto de Milha e, consequentemente, meu pai passou toda a juventude montando, treinando, aprendendo e competindo. Por outro lado, meu avô materno se apaixonou pelos cavalos Árabes de exposição. Por isso, desde bebê fui introduzido no mundo equestre com muita paixão e respeito por todos. Na verdade, não lembro de uma primeira experiência específica, pois os cavalos fazem parte da minha vida desde as minhas primeiras memórias.
Como você se envolveu com o enduro? O que no enduro despertou seu interesse?
Com três anos e meio, fui aceito na primeira escola de equitação em que meus pais conseguiram me matricular. A idade mínima era 4 anos, mas nem meus pais nem o instrutor aguentavam o quanto eu insistia para montar. Comecei então a ter aulas no Centro Hípico Iucatã, em Brasília, onde fiz minhas primeiras montarias e lições com o instrutor Marcos (“Tio Marquinho”). Lá, eu montava na pista com meus pais e amigos e depois saía para as trilhas, desenvolvendo-me aos poucos. Logo conheci as competições de enduro praticadas por algumas pessoas do Centro. Passamos a assistir a provas de 20 km, para conhecer as pessoas, as categorias e o ambiente, mas sem competir. Quando completei 8 anos, fiz minha primeira prova e, a partir dali, nunca mais quis ficar longe das trilhas, dos desafios, da natureza e do esporte. Para mim, montar ao lado do meu pai e das pessoas que eu amava, tentando completar o percurso no tempo exato indicado, era um grande desafio, algo que sempre me intrigou e divertiu.
Fale sobre seu primeiro cavalo.
Por ser muito competitivo e querer passar cada vez mais tempo com os cavalos, não demorou a eu querer sair das provas de 20 km e avançar para novas categorias, o que também animou meus pais. Naquele momento, acredito que eles perceberam a importância de termos um cavalo próprio. Assim chegou o TS Sheik (Hello Barich ELS x AF Dacla), um belo cavalo castanho que, na época, praticava Western Pleasure e foi o melhor presente que já recebi. Além de muito dócil e bonito, tinha energia, me conhecia bem, nunca fez nada perigoso comigo e me proporcionou muita alegria. Para mim, era incrível poder cuidar dele, dar banho, aproveitar os fins de semana, competir em Brasília e tirar fotos para mostrar a todos. Com ele fiz minhas primeiras provas de 40, 60 e 80 km em Brasília. Em 2016, fizemos nossa primeira viagem para competir: o XXVI Campeonato Brasileiro de Enduro, em Caetanópolis (MG), um verdadeiro sonho.
Qual cavalo mais marcou sua trajetória até agora no enduro? Pode nos contar mais sobre ele?
Sem dúvida, cada cavalo que cruzou nosso caminho foi um aprendizado e deixou sua marca de alguma forma, mas acredito que o mais marcante até hoje tenha sido a CP Latifa. Ela foi o primeiro cavalo que compramos com a ideia de competir em grandes eventos e crescer no esporte. Além das competições, foi o primeiro cavalo que acompanhei desde potra, passando pelo primeiro parto, o início do treinamento, cada prova qualificatória e, por fim, o alto rendimento. CP Latifa, filha do garanhão Shagya importado Qubilaikhan de Crouz, com a belíssima égua Eternity da Barra, me ensinou mais do que qualquer outro cavalo. Fiz cada treino e cada qualificatória até 2022, quando fomos Campeões Brasileiros Nacionais no CEIYJ2* 120 km e segundos colocados no CEJ2* 120 km no Paraná, em novembro, o que nos garantiu vaga na equipe brasileira de Young Riders para o Campeonato Pan-Americano de Enduro de 2023. Com ela fomos ao Chile e, apesar de todos os desafios da viagem, conquistamos a medalha de bronze individual e o ouro por equipes. Além disso, ela me levou à minha primeira prova de 160 km. É uma égua que marcou a mim, minha família e todos ao seu redor. Por isso digo: ela ainda conquistará muito, e teremos muitas histórias para contar.
Quais qualidades você mais valoriza em seus cavalos?
Por competir em diferentes lugares, costumo me adaptar bem a vários tipos de cavalos, o que é especial para mim, pois cada um traz algo diferente. Em termos de atitude, valorizo muito aqueles que gostam de estar na pista, que saem para treinar com a cabeça à frente e vontade de galopar. Além disso, valorizo muito bons aprumos, com postura correta e força para galopar. Essas características, somadas a um coração que se recupera rapidamente e se adapta ao treinamento, são os principais diferenciais que vejo nos meus cavalos e naqueles de que mais gosto quando falo de enduro.
Descreva um treino típico quando o objetivo é condicionar o cavalo.
Quando quero condicionar um cavalo, procuro trilhas mais exigentes em termos de altimetria e variação de ritmo, sempre com piso de qualidade. Meu objetivo não é ser o mais rápido, mas fazer com que o cavalo aprenda a acelerar e frear, galopar, trotar e caminhar em diferentes velocidades, bem posicionado e usando todo o corpo para se movimentar. A ideia é que ele saiba fazer de tudo, em diferentes trilhas e junto a muitos outros cavalos, para que, quando chegar a hora de competir de verdade, possa correr sem entrar em conflito com o cavaleiro. Acima de tudo, quero que o cavalo aproveite o percurso, se sinta bem, goste de correr e termine a prova ainda com energia e vontade de seguir. Isso constrói a mente e a técnica de um campeão.
Qual foi sua maior experiência no enduro?
Acredito que vivi experiências difíceis de comparar entre si, mas destaco 2024 como um ano especial, pois tive a oportunidade de ir à Europa em agosto e permanecer até novembro. Cheguei à Espanha, tive contato com o treinamento diário de um grande centro, com cavalos espetaculares e competições de alto nível. Depois, fiz parte da equipe de apoio da Seleção Brasileira no Campeonato Mundial de Enduro da FEI em Monpazier, França, onde conquistamos o 8º lugar individual, acompanhando de perto cada etapa da competição. Também encontrei vários brasileiros, participei de uma prova técnica de 100 km e fui acompanhado pela equipe de Philippe Thomas, um dos melhores cavaleiros da França. Por fim, voltei à Espanha e vivi mais dias intensos com diferentes cavalos. Tudo isso foi possível graças a grandes experiências anteriores e, sem dúvida, abrirá portas para inúmeras oportunidades futuras.
Como você se prepara para uma prova de enduro?
Minhas maiores preocupações são estar bem preparado e com o peso adequado para as competições. Por isso, gosto de montar regularmente e não falto a nenhum dia de treino durante a semana. Em geral, treino todos os dias, alternando corridas de 5 a 20 km, treinos funcionais e montarias, para garantir que eu entregue o meu melhor aos cavalos quando exigido. Também cuido da alimentação, pois, com 1,83 m de altura, não posso ganhar muita massa corporal.
Uma prova que ainda não disputou e uma prova inesquecível.
Ainda quero competir em diferentes condições e locais. Uma das minhas maiores aspirações atualmente é participar da Al Fursan Cup, no Reino da Arábia Saudita. Quanto a uma prova inesquecível, acredito que o Campeonato Brasileiro de 2022 me trouxe um sorriso que nunca havia experimentado antes, e o Campeonato de 2024 foi o mais disputado e memorável da minha carreira.
Qual foi a prova de enduro mais desafiadora da sua carreira?
Acredito que o Campeonato Brasileiro Nacional de 2024 foi a competição mais desafiadora que disputei e venci. Além de ter sido realizado na trilha do Haras Endurance, que considero a mais difícil do Brasil, enfrentamos um dia muito quente e adversários extremamente determinados. Tive de ser muito cauteloso ao longo do dia, usar o terreno a favor da égua, saber quando economizar e quando gastar energia, e aproveitar cada segundo de descanso para chegar ao final no meu melhor. Foi incrível vencer nessa trilha e celebrar com a equipe Rach todo o grande trabalho realizado.
Qual é a maior lição que os cavalos lhe ensinaram?
Os cavalos me ensinaram que grandes conquistas levam tempo. Que resultados exigem trabalho, constância e suor, e que não adianta querer ser o melhor sem fazer o melhor. Ensinaram-me a ser cuidadoso, a olhar para o próximo e, sem dúvida, a me aproximar de Deus e de Sua criação.
Quais títulos você já conquistou?
Fui campeão brasileiro da categoria Jovem nos 80 km em 2017 e 2018.
Os títulos mais significativos foram os Campeonatos Brasileiros Nacionais de Young Riders nos 100 km e 120 km em 2021, e os 120 km em 2022, 2023 e 2024. Conquistei ainda a medalha de bronze individual e a medalha de ouro por equipes no Campeonato Pan-Americano de 2023, no Chile.
Como você se sente sendo o único jovem cavaleiro a vencer o campeonato brasileiro de 120 km por quatro anos consecutivos?
É incrível saber que sou o único a alcançar isso — algo que nunca acreditei realmente ser possível, dadas as inúmeras condições necessárias para completar e vencer uma prova. Tenho convicção de que estive acompanhado das melhores equipes, de cavalos extraordinários e de uma vontade infinita de vencer. Vencer sempre foi o objetivo, e acredito que criamos um recorde que será um grande desafio para quem tentar superá-lo.
Você acha que, para correr uma prova de 160 km, é necessário adotar uma estratégia específica? Você teve uma?
Completar uma prova de enduro de 160 km não é algo que qualquer cavalo, cavaleiro ou dia permita. Essa competição não começa no dia da prova; começa no desenvolvimento do cavalo, com preparação diária para se tornar um atleta de longa distância. Por isso, acredito que uma estratégia específica é essencial, mas ela não se limita ao dia da competição — começa muito antes. O dia da prova é apenas o momento de colocar toda a preparação à prova. Pessoalmente, não foco em um plano rígido ou em uma média específica; conduzo cada fase com base no treinamento e na minha conexão com o cavalo.
Como você se sentiu ao cruzar a linha de chegada e após a última inspeção veterinária que confirmou sua vitória?
Falando do Campeonato Brasileiro de 2024: cruzar a linha de chegada após eu e a Peridot Rach darmos tudo de nós na etapa final foi uma mistura de triunfo e alívio. Pode soar exagerado, mas correr 120 km já é algo insano. Correr bem, competir intensamente e vencer? Mais ainda. É isso que nos move todos os dias, que nos faz treinar na chuva, sob sol forte, no frio e no calor. Faz com que cada desafio e cada revés valham a pena. Quando cruzei a linha de chegada, minha mente ficou em branco. Passamos pela inspeção veterinária e, só depois de alguns minutos, caiu a ficha: havíamos feito história. Eu me tornara o primeiro tetracampeão brasileiro da categoria Young Riders 120 km. Em seguida, veio uma onda de emoção e gratidão por todos que estão ao meu lado, pela minha equipe, meus pais, meus concorrentes e, acima de tudo, por Deus, que abre portas e guia cada passo dessa jornada.
Você tem planos ou desejos para o futuro da sua carreira como cavaleiro?
Tenho apenas meus cavalos, meus amigos e sonhos que não param de crescer. Não me vejo longe do esporte nem parado em um só lugar. Quero continuar montando, me preparando, evoluindo como pessoa e como cavaleiro. Em 2025, quero encerrar meu último ano como Young Rider com uma medalha pan-americana e uma medalha em Campeonato Mundial. Quero viver mais eventos, mais cavalos, mais países, fazer mais amigos e nunca parar.
Além do enduro, o que mais você faz?
Enquanto vivo tudo isso no enduro, estudo Ciências Econômicas na Universidade de Brasília, leio bastante e me interesso por finanças pessoais. Gosto de praticar esportes, ser ativo, passar tempo com minha família, ir a eventos, à igreja, viajar e aproveitar a vida.
Você tem alguma superstição quando compete?
Acredito que Deus está sempre presente, cuidando de mim e guiando cada passo. Sempre incluo meus cavalos e as competições em minhas orações, confiando que a vontade d’Ele será feita. Isso me ajuda a aceitar que desafios, eliminações e provações fazem parte do caminho, e me conforta saber que tenho em quem confiar durante todo o processo.
Ídolos no enduro e na vida.
Considero meus pais grandes exemplos de bondade, integridade e compaixão por pessoas e animais. No esporte, admiro muitos cavaleiros excepcionais que conheci pessoalmente e que me ensinaram lições valiosas: como construir relações verdadeiras com os cavalos, como competir e como desenvolver uma mentalidade vencedora. Poderia citar muitos, cada um contribuindo de sua forma em momentos distintos, mas não gostaria de deixar ninguém de fora.